BRASIL DE FIO À PAVIO - 06/1986

Assim chamou-se esta aventura que percorreu o Brasil de norte à sul até o Amazonas, cruzando a rodovia Transamazônica, num percurso total de 10.600 km e 28 dias de aventuras e desventuras neste imenso Brasil.

Era setembro de 1985, quando eu (Jorge Cancella), Ismael dos Santos (colega de trabalho e parceiro de trilhas) e “Rubanga”, Rubens Francisco Pereira, conversávamos sobre uma aventura publicada na época pela revista Duas Rodas, onde dois amigos, de Honda XL, cruzaram o pantanal mato-grossensse.

Rubanga inicia um comentário do tipo: ”mais hein? Cancella, de repente poderíamos fazer uma viagem assim no ano que vem. Fiquei com a idéia na cabeça, e revendo algumas edições de viagens da citada revista, me veio a lembrança uma das primeiras aventuras citadas na mesma revista, era uma travessia da Transamazônica, de...Harley Davidson Electra Glide, por um motoqueiro catarinense, o João das motos, e sozinho!

Dali a alguns dias eu praticamente já tinha o roteiro esboçado, e então começaram os comentários, e no inicio de janeiro de 1986 conseguimos marcar as férias para junho, que era um dos meses em que chovia menos naquela região.

Depois de um tempo, Rubanga, devido alguns problemas particulares resolve adiar a viagem, convidamos então outro parceiro de trilhas, o Zé Carlos Pienta, que depois de trocar o período de férias para junho, confirmou sua participação.

Dali em diante, o papo na “zero hora”, (trabalhávamos em turno) entre eu e Ismael era só a viagem pela Transamazônica, adaptação para tanque de combustível maior e de plástico, (novidade na época) informações sobre a transamazônica era muito difícil, e assim foi.

Faltando menos de 15 dias para a “largada”, em meados de maio, eu resolvo me exercitar para melhorar as condições físicas na viagem longa e cansativa, só que “exagerei” e acabei dando um “mau jeito” na musculatura das costas, e depois de visitar um médico ortopedista, o parecer clínico recomendou “repouso” e quinze sessões ininterruptas de fisioterapia, forno, etc., etc.

Daquele dia em diante,para mim, se abaixar ou pegar um pequeno peso era um “sacrifício”, mas a minha dificuldade maior era “pegar no sono”.

Inicio de junho de 1986, a “largada oficial” foi na frente do Terminal da Petrobrás, onde todos trabalhávamos com muitas fotos, “chistes” e muitos votos de boa-viagem, etc.

 

Não tínhamos completado 30 kms.! E eu já sentia “formigamento” na região lombar, pernas, etc. No início meus companheiros tentaram me animar fazendo uns “chistes”, mas na terceira ou quarta parada para “alongar os músculos”, o silêncio foi total.

Na chegada num hotel em Assis-SP., tiveram que retirar e transportar minha bagagem; naquela noite mal preguei o olho.

Me lembro que meu companheiro Zé Carlos, o Pienta, ainda no jantar tentou me incentivar, disse que aquilo era passageiro e que logo, logo eu estaria legal.

Pensei, coitado do Pienta, com certeza ele não imagina o que eu estou sentindo, e psicologicamente já me preparava para retornar, mas não sei se foram as palavras do amigo, ou sua força mental que no dia seguinte (dormi sem travesseiro, posição adequada, etc.) me senti um pouco melhor e para minha admiração dia à dia fui melhorando e aos poucos fomos aumentando as distancias entre os “alongamentos” até 150 e 200 km.

Rodávamos em média 550 kms., por dia.

Rodamos pelo pantanal mato-grossensse, ficamos espantados com a quantidade de animais mortos na estrada e com as queimadas, muito comuns naquela região.

Sentimos também o calor em Cuiabá, 42 graus; fomos conhecer a Chapada dos Guimarães, depois entramos em Rondônia.

Faltando poucos quilômetros para chegarmos em Porto Velho, furou o pneu da moto do Pienta, passava do meio-dia, debaixo de um sol escaldante, com temperatura de mais de 40 graus, levamos quase uma hora prá trocar a câmara e colocar a moto em condições de seguir viagem (mal sabíamos que aquilo seria uma constante na viagem, e Pienta ainda teria mais onze pneus furados até o final da viagem, por causa disso ficamos “treinados” e no último pit stop (o tempo agora cronometrado) foi de apenas 12 minutos prá troca ou remendo na câmara de ar.

Em Porto Velho conhecemos o Roberto, um goiano, que estava morando lá, e que nos recebeu muito bem, inclusive nos hospedou em sua casa e mostrou a cidade para nós; viajou conosco até Humaitá-AM, à bordo de sua reluzente CB 450 E; que a princípio era nosso ponto de partida para a travessia total da Transamazônica, mas quando lá chegamos e conversamos com o pessoal da região fomos alertados a não tentar cruzar aquele trecho por que levaríamos não se sabe quanto tempo para concluir os quase 800 kms., e de Sucunduri até Jacareacanga era só floresta virgem e possivelmente não conseguiríamos cruzar todos os rios por falta de pontes que haviam caído com a enchentes, bastante comuns naquela região, mais o risco da malária, índios hostis, etc.

Finalmente nos convenceram principalmente pelo fator tempo, já que teríamos apenas os trinta dias de férias e com todos aqueles problemas seria muito difícil regressar a tempo.

A travessia da Manaus-Porto Velho foi uma aventura prá nunca mais esquecer, primeiro porque num trecho de quase 700 km., só existia, na época, um posto de reabastecimento (Petroselva) movido por manivela ainda, segundo os moradores da região, a estrada só é transitável nos meses de junho e julho; então em Humaitá tivemos de localizar a casa do motorista do caminhão de combustível que estava em viagem para o local, a esposa dele nos falou que ele estava atrasado “apenas” uma semana para regressar, mas que não teríamos problema, já que deveríamos encontrá-lo pelo caminho e com certeza ele nos abasteceria sem problemas (aquela era uma situação comum por lá!).

A estrada Manaus-Porto Velho, ou o que sobrou dela, na época, era um trecho com algum asfalto e buracos de todo tipo e tamanho, tinha alguns buracos tão grandes que os caminhões (só no toco), ou seja, caminhões pequenos é que passavam em comboio, por que sózinho era uma aventura muito perigosa; tinham que retirar os pneus-socorro da traseira para evitar enroscar nas bordas dos buracos maiores!

Levamos o dia todo para percorrer menos de 300 km, dificilmente conseguíamos ultrapassar os 60 km/hora e pneu furado era uma constante; a parte legal foi que nesse ritmo as motos fizeram médias de 35 km/litro e quando chegamos para reabastecer no posto Petroselva ainda tínhamos muito combustível.

Tivemos que dormir de barraca naquele dia, acampamos próximo à um restaurante de beira de estrada, só que como já era tarde o jantar foi arroz e ovos (muitos ovos fritos) aquele foi um jantar prá não se esquecer jamais, não tínhamos almoçado e a bolacha acabou antes da 3 da tarde.

Naquela noite ainda conversamos com 5 caminhoneiros carregados de material de construção; eles partiram por volta das 22 horas.

Naquela noite dormimos sem banho, afinal o banho seria num rio próximo, e como havia o perigo de piranhas, etc., achamos melhor encarar o “sovaco” um do outro do que o “bafo da onça preta”.

No dia seguinte tomamos um café com pão de casa e muitos ovos fritos, saímos por volta das 7 da manhã; ainda não eram 11 horas da manhã e já havíamos ultrapassado os caminhões (eles vão tão devagar que levam uma semana em média para chegar à Manaus).

Próximo de Careiro as balsas para travessia já são maiores e bem mais seguras; com melhores condições de estrada.

Chegamos em Manaus no final da tarde, arranjamos um hotel e depois de um bom banho saímos para jantar de verdade e cama, estávamos todos “quebradinhos”.

Ficamos 3 dias em Manaus, fomos à praia de Ponta Negra, e o momento mais esperado era ver de perto nas lojas de moto os modelos “proibidos para o Brasil de cá”, na época a importação era proibida e estes modelos eram vendidos apenas naquela região, curtimos ver as motos dos sonhos, na época a Yamaha V Max, XT 500, RD 500 (quinhentas cilindradas mesmo, 2 tempos) e várias outras.

Compramos algumas bugigangas importadas, etc.

De Manaus seguimos de barco (3 noites e 2 dias navegando), dormir em rede pra mim não foi muito legal, minhas dores lombares que estavam bem fraquinhas, começaram a incomodar de novo.

Finalmente Chegamos à Santarém-PA, de lá até Rurópolis (divisa com a Transamazônica) foram 220 km de asfalto intercalado com alguns trechos de terra.

Quando entramos na Transamazônica começaram a aparecer alguns problemas maiores com as motos, era um quebra-quebra de bagageiro e Santantonio (um tipo de bagageiro alto, com o que foi usado no filme Easy Rider) que em trechos de chão além de desequilibrar a moto e piloto quebra com freqüência; e por causa disso tivemos que pernoitar em Uruará.

No dia seguinte levantamos bem cedo para poder rodar a maior parte do trecho com a luz do dia, mas não foi fácil, além da poeira e algumas pontes fora da localização original (as pontes apodreciam e eles construíam outra ao lado), várias vezes estas pontes nos causaram alguns sustos quando estavam próximas das curvas.

Encontramos em ocasiões diferentes, um caminhão carregado de toras e só cabia um dos pneus traseiros na tora sobre a ponte; noutra ocasião era um ônibus em que os passageiros desciam do veiculo para travessia da ponte, em situação tão precária que o próprio cobrador ia “engatinhando” pela tora da ponte, orientando o motorista; numa dessas situações encontramos um caminhão de toras que escorregou um dos pneus traseiros e além de deixar cair dentro do rio mais da metade da carga teve que aguardar mais de meio dia por algum tipo de socorro já que estava “dependurado” tipo cai-não-cai da ponte; interessante é que aquilo era relativamente comum naquela região e já não causava tanto espanto ao povo dali.

Era sexta-feira e precisávamos chegar à Altamira em tempo de encontrar a agência do Banco do Brasil aberta sob o risco de ficarmos sem dinheiro até a segunda-feira seguinte, Ismael resolveu “dar um gás” e se mandou na frente, mas nem foi preciso, acostumados com estradas de chão eu e Pienta chegamos em seguida; sacamos a grana e nos instalamos num hotel.

Depois de um bom banho fomos jantar num restaurante, onde nos serviram bife à cavalo, comemos tanto que eu passei mal e tive uma bruta disenteria, que não me deixou sequer chegar ao banheiro (tremenda “cagada”, hé, he).

No dia seguinte quando tomávamos café da manhã, o dono do hotel, um senhor muito simpático, veio sentar conosco, e depois de falar que era um ex-fotógrafo, paulista, radicado ali há mais de dez anos. Queria por todo jeito que ficássemos mais uns dias para nos levar a conhecer o rio Xingu, pescaria, caçada, enfim conhecer um pouco mais aquela região ainda virgem (naquela época).

Mas o tempo nesta viagem era nosso maior inimigo, nos desculpamos e tocamos em frente.

De Altamira demos um gás forte, almoçamos em Pacajá (duas da tarde); de Pacajá em diante a estrada é bem larga e dá pra acelerar sem maiores problemas, chegamos de tardezinha em Marabá, por causa de uns pneuzinhos furados; fizemos a travessia de balsa até Xambioá, onde pretendíamos passar a noite, mas como dali em diante o trecho era de asfalto resolvemos tocar até

Araguaína, na época, estado de Goiás, hoje Tocantins.

Dali em diante foi um retão só pela Belém-Brasília, pernoitamos em Gurupi-TO.

Dia seguinte dá-lhe estrada, precisávamos ganhar tempo estávamos atrasado em relação à nossa programação de viagem, pernoitamos em Anápolis-GO, aproveitamos o dia seguinte para conhecer Goiânia-Go, por sinal gostamos muito desta cidade, muito moderna, e bem projetada, com avenidas bem traçadas, etc.

Como queríamos conhecer Brasília, tivemos que retornar até Anápolis, mas valeu a pena, a capital federal é muito interessante, bem diferente das outras cidades brasileiras; ficamos um dia em Brasília para conhecer, com direito a foto nos locais mais interessantes.

Depois entramos em Minas passamos alguns dias rodando pelas cidades históricas de Minas, Ouro Preto, Tiradentes, São João del Rey, Congonhas, etc.; só ali já valeu a viagem.

De Minas, pegamos um pedacinho do estrado do Rio, cruzamos São Paulo e depois de 28 dias, estávamos em casa para curtir os 3 ou 4 dias de férias com a família (ah! Essas mulheres maravilhosas que sempre seguram essa barra!).

Esta viagem rendeu muitas reportagens, inclusive matérias na Folha de São Paulo e no Jornal Petrobrás, entrevista na rádio local.

Mal retornamos ao trabalho teve um churrasco na sede da associação Petrobrás-Pguá., e fomos sabatinados pelos amigos, principalmente colegas de trabalho, já que sempre que possível telefonávamos à noite para o Terminal e conversávamos com o pessoal contando as novidades.

Passadas algumas semanas já estávamos eu e Ismael planejando uma nova aventura (Brasil de fio à pavio 2) desta vez seria um roteiro passando pelo sertão do nordeste até Fortaleza-CE. Mas isto é assunto para a próxima aventura. Aguardem!!

 

 

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